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PR diz que Igreja tem “dever ético” de se responsabilizar por abusos

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O Presidente da República defendeu hoje que a Igreja Católica tem o “dever ético” de se responsabilizar pelos casos de abusos sexuais e considerou que o número agora conhecido é “bem superior ao número anterior”.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, esse “deve ético” da Igreja Católica deve abranger “o apoio psicológico”, que “continua a ser muito importante para muitas das vítimas anos e anos e anos depois”.

Depois de indicar o dever da Igreja “de se responsabilizar” perante os casos de abusos sexuais detetados pela comissão independente, o chefe de Estado lembrou que “em vários países” houve indemnizações.

“Vamos esperar pela posição da Igreja”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, após questionado sobre se deverá haver lugar a indemnizações para as vítimas também em Portugal.

O Presidente da República falava aos jornalistas no Palácio de Belém, em Lisboa, no final de mais uma edição da iniciativa “Músicos no Palácio de Belém” e depois de na segunda-feira ter sido conhecido o relatório da comissão independente que estudou os abusos sexuais na Igreja Católica, e que aponta para quase cinco mil vítimas, no mínimo.

Marcelo Rebelo de Sousa considerou que o número “ultrapassou aquilo que tinha pensado de início e provavelmente ultrapassou aquilo que os portugueses todos pensavam quando se arrancou com a comissão”.

“Este número é bem superior ao número anterior [mais de 400 casos em outubro] e, para o tempo em que trabalhou a comissão, como alguns dos membros reconheceram, significa que pode ainda ser uma parte do fenómeno e não todo o fenómeno, que continua presente na sociedade portuguesa”, afirmou.

O chefe de Estado defendeu também, quando questionado se quem ajudou a encobrir os abusos não deve ter lugar na Igreja, que “a Igreja como instituição tem de repensar a sua atuação no futuro, porque em muitos casos não teve a noção, noutros casos teve a noção mas subavaliou, achou que era um fenómeno isolado ou que era um fenómeno que não tinha a gravidade que tinha, noutros fenómenos ainda demorou muito tempo a reagir, noutros fenómenos ainda está a querer compreender aquilo que se passou”.

“Nos países em que a resposta foi mais clara, mais determinada e mais rápida o efeito foi um, naqueles em que não foi assim o efeito foi outro, e era preferível que fosse o primeiro o caminho em Portugal”, defendeu.

Apontando que essa é “uma reflexão que a Igreja terá de fazer”, Marcelo referiu que “tem marcada uma Conferência Episcopal para o começo de março” e que “quanto mais rápido for e mais claro for, melhor”.

“É evidente que uma instituição que se confronta com este tipo de relatório é levada a mudar de vida, é inevitável. Seria muito estranho que, como consequência daquilo que se publicou, não houvesse na responsabilidade, no afastamento daqueles que podem ter uma atuação reincidente ou repetida, no funcionamento das estruturas da instituição, se não tirassem lições para o futuro”, salientou.

Questionado se estes casos poderão ter impacto na Jornada Mundial da Juventude, que decorre em agosto em Lisboa, o chefe de Estado disse que este evento tem um contexto “concreto, específico” e “os participantes são na generalidade sobretudo pessoas que vêm do estrangeiro”.

“É uma realidade muito específica que não tem diretamente a ver com aquilo que é uma responsabilidade mais de fundo, de curto prazo, de médio prazo e de longo prazo, e que implica mudanças de vida”, declarou.

A Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica recebeu 512 testemunhos validados relativos a 4.815 vítimas desde que iniciou funções em janeiro de 2022, anunciou na segunda-feira o coordenador Pedro Strecht, que referiu ainda que esta comissão enviou para o Ministério Público 25 casos.

Depois de ter sido entregue à Conferência Episcopal Portuguesa, e da apresentação pública, o relatório foi também entregue em mãos ao Presidente da República pela comissão independente, na segunda-feira.

Hoje, Marcelo Rebelo de Sousa apontou que “a comissão chamou muito atenção para o facto de o número ter aumentado bastante desde o momento em que começaram os trabalhos, e sobretudo tendo em linha de conta que teve muito pouco tempo para concluir esses trabalhos”.

O Presidente indicou também que a comissão independente “chamou a atenção para a gravidade dos abusos, para que se não pensasse que eram abusos sobretudo psicológicos, havia muitos, muitos abusos físicos, e muito intensos, e também chamou a atenção para o facto de na sua opinião durem até hoje”.

Este “não é um fenómeno do passado, não é um fenómeno até aos anos 90, é um fenómeno que continuou, entrou neste século e continua até hoje”, advertiu Marcelo Rebelo de Sousa.

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